sábado, 10 de maio de 2008

Frade

No que diz respeito às humilhações que sofri na minha vida, minha tia esteve quase sempre ligada a elas. É óbvio que nunca o fez por mal, antes pelo contrário, mas a vontade de ser diferente e de que eu fosse diferente, falava mais alto. Já vos contei a humilhação do índio, que afinal mais parecia uma “indiazinha”, e hoje falarei sobre a minha primeira comunhão, ou seja, mais uma humilhação.

Estava eu na 1ª classe, tinha 6 anos e decorria o ano de 1965. Depois de uns seis meses de aulas de catecismo com a Dª Madalena, fiquei preparadíssimo para a minha primeira comunhão. Posso mesmo afirmar que era um dos mais bem preparados para receber Jesus. A nossa classe teria uns 30 alunos e todos iríamos receber o Santíssimo Sacramento. Convém não esquecer que éramos todos rapazes. Naquela altura a indumentária habitual para estes casos era umas calças brancas, uma camisa branca ( de preferência de seda) com um laço de setim numa das mangas. Era o habitual para todos os meus 29 companheiros de aula que, a partir daquele dia, nos “entregaríamos” a Deus. Para mim, minha tia tinha outros planos. Aquela indumentária era demasiado popular, muito “corriqueira”, o Nuno não podia ir como os outros, tinha que ir diferente. “Mas diferente, como?” perguntava eu ingenuamente. “Já sei, vais de Frade” responde minha tia. Até me ri, com aquilo que eu julgava ser a piada do século . Só me faltou chorar, quando percebi que afinal não era piada. E assim fui eu, naquele dia daquela Semana Santa a caminho da Igreja de S. Pedro ...vestido de frade (as sadálias eram, por si só, uma afronta), para fazer a minha primeira comunhão com o padre Rafael. Ainda me lembro da cara que fizeram os outros 29 companheiros quando me viram chegar naquela “figura”. Na sua ignorância, uns perguntavam-me se eu ia mudar para o seminário, outros se era eu que ia dar a 1ª comunhão... eu limitava-me a dizer que não a tudo, a olhar para minha tia e a pensar que o tal Jesus estava a entrar com o pé esquerdo na minha vida. Tive que suportar as bocas de “Eh pá, o Carnaval já passou, agora estamos na Páscoa” e “ficas bem de saia comprida”...enfim, uma humilhação perante os meus 29 companheiros e familiares.

Depois daquele pesadelo, pensava eu que de humilhações já estava livre. Como estava enganado. Não bastava ser humilhado perante aquelas 100 pessoas naquele dia na Igreja de S. Pedro. Não. Minha tia tinha outros planos para mim. Que tal uma humilhação perante umas 50 mil pessoas? Se bem pensou, mais rápido o fez. Vinha aí a procissão do Corpo de Deus, a mais famosa procissão do Funchal. Quem vai sair na Procissão? O Nuno, claro, vestido de frade. Saí da Sé, percorri meio Funchal apinhado de gente e voltei à Sé. Fui “admirado” por mais de 50 mil pessoas. Penso que a minha decisão de ficar a viver em Lisboa tem algo a ver com o facto de pensar que quando passeasse no Funchal, haveria sempre alguém que diria a outrém, baixinho “aquele foi o miudo que saiu há uns anos na procissão do corpo de Deus vestido de Frade... coitado“.

De uma coisa estou seguro, foi aquela humilhação que decidiu que a minha primeira comunhão fosse também a última.

12 comentários:

blueminerva disse...

Que saudades de te ler companheiro.
Coisa mai linda! Eras uma criança absolutamente adorável. E não é que pareces tão devoto. A tua tia era (é?) muito fashion meu caro. Uma visionária! Lembra-te que a melhor maneira de receber um homem (Jesus ou outro qualquer) é estar de saia... é mais cómodo.
Um beijo

Nuno disse...

Goza goza, que ainda podes ter um filho assim, como eu, ou pior....uma tia como a minha.

Beijos

Su disse...

gostei de ler o já contado

uma vez mais deliciei-me
com teus pensamentos e com a devoção da tua tia....

obvio que o "nosso menino nuno" nunca será igual aos outros.....que diga a tia:)

pstt estas linduxooooooooo na foto

jocas maradas..sem traumas

Nuno disse...

Às vezes pergunto-me se toda a gente tem uma tia como a minha? Adora-me, como sempre me adorou, como se eu fosse seu filho e fez-me passar por tantas humilhações que me marcaram para o resto da vida. Odeio Carnavais, nunca mais comunguei, fiquei a viver em Lisboa... mas não passo sem ela.

A foto, para veres as figuras que eu fazia. Ainda gozam...as meninas.

Beijocas taradas

BaBy_BoY_sWiM disse...

Nuno... Parece que sofremos das mesmas humilhações, mas a minha foi mais na crisma! LOLolol

Um fato que veio directamente da Venezuela do meu padrinho de baptismo que mandou... Era lindo como deves prever... ehehe

(tenho que expandir o meu nick por todo o lado... daí estar na prova oral... Lolol)

Nuno disse...

BBS,

Tu já viste as coisas que temos em comum?...somos madeirenses emigrantes, fatos humilhantes, CS Marítimo, só falta mudares-te para o Sporting e ficas perfeito.

Um Abração, e ficarei atento á "Prova Oral"...

Flávio disse...

Se quiseres voltar à cidade que nunca dorme, aproveita agora que o dólar está baixíssimo. Ou então, compra os dólares agora e guarda para depois, como os esquilos :) Foram as minhas férias mais baratas de sempre e, quem diria, em Nova Iorque.

Nuno disse...

Sim, agora está no momento de nos sentirmos ricos em New York. É apenas uma questão de disponibilidade de tempo, mas que gostaria, lá isso é verdade. I Love NY.

Abraço

Pink disse...

Hummm és leão, boa!
Quanto ao ires assim vestido, eu na profissão de fé (ou comunhão solene)fui com uma túnica tipo batina, daquelas que os acólitos usam. Eu e todas as raparigas e rapazes!!!
Mas como íamos todos de igual, e embora detestasse aquilo, lá me contive.
Também naquela altura era demasiado
"tolinha" para revolucionar como a tua tia as tradições da terra.
Até que estavas engraçado, excepto as sandálias, concordo.
Mas olha que a tua tia, era demasiado revolucionária para uma madeirense! Apesar de sofreres tu com tudo isso, ela está de parabéns, pois agir assim naquela época era um acto heroico.
Mas à custa das tuas insólitas histórias...rio-me eu do lado de cá.
Até!E uma semana mt pink...

Nuno disse...

Pink,
É verdade sou Leão...de vários modos: de signo, de Alvalade e do Almirante Reis.
Efectivamente minha tia era muito avançada para aquela altura, eu só não gostava era quando ela o demonstrava comigo. Mas eu, como tu, eramos crianças, não tínhamos voz activa... era de "indio" e estava decidido...era de "frade" e não se fala mais no assunto... A democracia não existia naquela altura... nem em casa de minha tia.

Beijos...e boa semana

Shinobi disse...

Lolololol, a história está linda, e a foto está simplesmente demais (lágrimas nos olhos, ih, ih, ih)!!!

Mas o que ainda tem mais piada é esta história contada no Golden Gate no início da noite,lolol!
A tua tia é demais ;) !

Grande abraço, senhor devoto!

Nuno disse...

Pois é Jorge, tu és um dos que já conhecia a história. Toda a gente devia ter uma tia como eu. Fiquei devoto a outras coisas, foi o que ela conseguiu com a brincadeira...

Um Abração